Abril Azul reforça importância da identificação precoce e do acolhimento após diagnóstico do autismo
O mês de conscientização sobre o autismo, conhecido como Abril Azul, tem impulsionado discussões importantes sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente em relação ao aumento da busca por diagnóstico — inclusive entre adultos.
De acordo com estimativas globais, cerca de 1 em cada 100 pessoas está dentro do espectro. No entanto, muitos indivíduos recebem o diagnóstico apenas tardiamente, principalmente aqueles com menores necessidades de suporte, o que pode prolongar dificuldades emocionais, sociais e profissionais ao longo da vida.

Diagnóstico tardio e seus impactos
Segundo a psicóloga Ellen Moraes Senra, o momento da descoberta costuma ser marcado por sentimentos ambivalentes. Enquanto alguns experimentam alívio ao finalmente compreender suas características e desafios, outros enfrentam insegurança, dúvidas e até sofrimento emocional.
Na prática clínica, é comum que pessoas diagnosticadas na fase adulta relatem:
- Dificuldades no ambiente de trabalho
- Desafios nos relacionamentos interpessoais
- Sensação constante de inadequação
- Problemas de comunicação social
- Esgotamento emocional frequente
Esses fatores, muitas vezes, estão associados a anos de adaptação sem compreensão adequada de suas próprias necessidades.
O mascaramento e suas consequências
Um dos principais fatores relacionados ao diagnóstico tardio é o chamado “mascaramento” — um esforço contínuo para se adequar a padrões sociais.
Embora essa estratégia possa facilitar a integração social em determinados contextos, ela cobra um preço alto. Entre os efeitos mais comuns estão:
- Aumento da ansiedade
- Episódios de depressão
- Burnout
- Perda de identidade
Além disso, a presença de comorbidades, como TDAH e transtornos de ansiedade, pode dificultar ainda mais a identificação correta do TEA.
Entender o diagnóstico como ponto de partida
O diagnóstico de TEA não representa uma solução imediata, mas sim um ponto de partida essencial. Ele permite compreender padrões de comportamento, identificar dificuldades e desenvolver estratégias mais adaptativas.
O transtorno é caracterizado por diferenças no neurodesenvolvimento, afetando principalmente:
- Comunicação
- Interação social
- Flexibilidade comportamental
É importante destacar que o TEA não é uma incapacidade, mas sim uma forma diferente de funcionamento, que exige compreensão, adaptação e suporte adequado.
O papel da família e do suporte emocional
O processo pós-diagnóstico não envolve apenas o indivíduo, mas também sua rede de apoio. A família desempenha um papel fundamental nesse momento.
Sentimentos como culpa e insegurança são comuns entre familiares, mas o foco deve estar no acolhimento e na construção de um ambiente seguro e compreensivo.
Em muitos casos, o acompanhamento psicológico para familiares também é recomendado, contribuindo para uma melhor adaptação à nova realidade.
Caminhos para qualidade de vida
Entre as abordagens terapêuticas mais eficazes, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) se destaca como uma importante aliada no desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais.
Combinada à psicoeducação, a TCC auxilia em aspectos como:
- Organização da rotina
- Regulação emocional
- Desenvolvimento de habilidades sociais
- Redução de sintomas de ansiedade
Mais do que um rótulo, o diagnóstico de TEA pode representar um verdadeiro ponto de virada, promovendo autoconhecimento, autonomia e melhor qualidade de vida.

Ellen de Oliveira Moraes Senra é Psicóloga Clínica (CRP 05/42764), especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia do Esquema. Possui formação em TDAH adulto e pós-graduação em avaliação e intervenção no transtorno. Também é CEO do Espaço Psicontemplando, autora de livros infantis na área da psicologia e coordenadora editorial.

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